...No entanto aqui estou, oferecendo o peito ao desconhecido, lábios apertados e olhar úmido, de pé na proa, sentindo a água fria do mar-oceano- negro afagar o casco. O capitão não sou eu, não está abordo. Deixou o timão, controla a embarcação de fora, por meio de minhas trêmulas mãos. Impede que o tremor de minhas mãos nos leve de encontro ao rochedo. Mas este é meu navio...
A preguiça agora toma lentamente conta das ondas... As rochas passam assombrando ameaçadoras, estão à espera da próxima tempestade para saciarem seus instintos destruidores. Contam comigo para o naufrágio. As rochas são monstros desenhados pelo luar contra um horizonte de nuvens e infinitas escuridões de tintas cor de fuligem para obstruir meus pulmões.
Só agora encontro a bússola. Estava perdida desde o início dos ventos; ficaram apenas as estrelas, que se velaram, uma a uma, antes do encontro entre as águas dos céus e as águas de netuno.
Durante a procela, eu era demônio raivoso, à deriva pelo convés; invalidado pelo medo de que o medo paralisasse o braço do leme. Não fosse a dedicação da tripulação e já estaríamos adernados. Alguns serão, ainda hoje, sepultados no mar...
Mas os ventos se amansaram, a bússola foi achada e, apesar do constante perigo dos recifes, as sereias perderam suas vozes.
A viagem não acaba tão cedo, mas as cores surgem, tímidas, com o avançar da madrugada já não tão escura e o sol logo secará o convés para que os homens descansem da noite e do medo; para que a esperança volte a habitar os horizontes das vidas. Até a próxima procela, até que os infinitos voltem a se chocar, quando os elementos estiverem novamente em desacordo. Aí não serei mais demônio, mas marinheiro sem temor das ondas que podem apenas alquebrar e destruir o meu corpo denso, como a tempestade que passou.
0 comentários:
Postar um comentário