Passando os canais. As velhas novidades viciadas de sempre: morte, tragédias, roubos, assassinatos; fazem parecer que o mundo anda inexoravelmente para o abismo. Agiotas brincando de senhores da vida: “Coração na sola do pé” – diz um deles na ligação gravada, como se houvesse felicidade sem coração, fora do amor.
O bem não faz manchete e o mal não carece ser comentado. Porém uma notícia me chamou mais a atenção: eis que, em uma cidade qualquer deste Brasil, no meio de um lixão, rolando entre sacolas de plástico e restos de comida; um corpo semi apodrecido de um neném. Disseram ser o corpinho de uma criança de dois meses... Sendo revirado pelas máquinas. Dois meses... Isso diz que a mãe o conheceu e conviveu com ele durante sessenta dias. Não foi um aborto praticado no calor da revolta ou durante uma crise de tristezas. Um bebê jogado no lixo. Talvez tenha chorado durante algum tempo, clamando à vida que mandasse uma alma solidária recolher-lhe a fragilidade e que não o deixasse morrer. Chego a sentir o frio e vejo a cena: uma criança largada no LIXO! O gelo que preenche meu estômago parece vir de algum túmulo frio, de um menino, que não pôde viver porque, aos dois meses de idade, foi atirado ao lixo, possivelmente por aquela que atenderia quando ele aprendesse a pronunciar a sagrada palavra: mãe.
Teria razão aquele agiota: “Coração na sola do pé”? Mas, espere!
Temos aqui, sorrindo de forma calma, mas terrível, andando silenciosamente pela casa, algumas crianças de corpos semi apodrecidos. Seus pensamentos invadem minha cabeça, como se falassem de dentro de mim: “Orai, orai pelas mães dos meninos e meninas largados ao lixo! Não tendes idéia do implacável remorso que corrói suas vidas. Nada sabes da escuridão profunda em que se atiraram, da miséria destes espíritos que jamais encontrarão tranquilidade nesta vida, da febre noturna que lhes faz companhia. Orai por nossas mães, assombradas mães, infelizes algozes de si mesmas, que rejeitaram os seres que seriam talvez o único motivo de alegrias que teriam neste mundo, e não acreditai na dureza do coração humano. Ele cede, mesmo que tarde, aos apelos do amor.”
Estás errado, agiota que te tornaste infeliz fio condutor da ruína das pessoas. Pois que vejo agora as crianças; não mais enjeitadas, chorosas, abandonadas ou apodrecidas; volitarem janela afora, misturarem-se com os raios da luz do dia, numa sublime jornada, vetada para nós que as maltratamos. Vão, meninas e meninos! Vão ser o anjo na cabeceira das mães culpadas que temem mais uma noite de pesadelos que se aproxima.
Benditas sejais vós, mães que carregam seus preciosos fardos junto ao peito; que negais a si mesmas pela singeleza da felicidade infantil. Benditas sejais vós, mães. Bendita sejas tu, minha mãe.
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