sábado, 27 de dezembro de 2008

O diabo da perfeição


Perfeccionista.
Quando, na entrevista para o cargo de gerente, em uma fabrica de papel e celulose, Hildebrando respondeu com essa palavra à pergunta que lhe foi feita: “Senhor Hildebrando, na sua opinião, qual é o seu pior defeito?”; não tinha causado nenhum assombro ao entrevistador. As respostas a essa pergunta giravam sempre em torno disso. Também, pergunta idiota! Bem que gostaria que alguém respondesse, por exemplo: “meu pior defeito é, com certeza, o vício em fumar craque; tenho perdido muito dinheiro nos últimos meses” ou “Eu sempre acabo transando com meus subordinados” ou ainda, “sou inseguro, indeciso, manipulador e punheteiro” Mas não, perfeccionista era o que respondiam. Então Hildebrando, por ter um currículo invejável, e por não haver mais ninguém num raio de 500 quilômetros com a pretensão de passar seus próximos anos fabricando papel higiênico, foi aceito para o cargo. Perfeccionista – pensou Gustavo, o entrevistador, naquela ocasião - bobagem.

Hildebrando passou então a ser responsável por 50 funcionários, ou colaboradores, como queiram. Dessas 50 pessoas, 15 foram substituídas em menos de nove meses por “não corresponderem ao perfil que a empresa vinha seguindo”. Havia quem dissesse que o Senhor Engenheiro Responsável Hildebrando tinha até uma lista (negra?) de nomes a serem riscados: a moça das vendas com sua “mania” de ter depressão (mania essa que se acentuou muito com a era Hildebrando), o senhor do RH, que não entendia nada de hierarquia e sempre contratava sem autorização e a senhora da limpeza, que foi pega em atitudes suspeitas a limpar o computador do chefe quando este estava fora.

Ivanor, que de idiota tinha só a cara de coruja e o hábito de coçar o rabo onde quer que estivesse, resolveu – sobrevivência - se adequar ao estilo do chefe e, não muito lá no fundo, ser um perfeito puxa-saco-cagueta-escroto-do caralho.
Com isso caiu nas graças de Hildebrando, afinal, qual é o chefe que não adora uma puxadinha de saco. Atendia a todos os pedidos absurdos com um sorrisinho de dentes pequenos de carnívoro, escutava atrás das portas sempre pronto a surpreender maus funcionários a falar mal do chefe, passou a freqüentar a casa de Hildebrando, jogar golf, gostar de uísque, odiar cigarro, torcer pelo Grêmio. Era o céu.

Um dia Hildebrando o chamou até sua sala.
- Ivanor, você sabe melhor que ninguém que a empresa está passando por muitas transformações – caminhava devagar, em círculos, com as mãos, ora às costas ora gesticulando como quem espanta moscas. Eu tive carta branca da matriz para desenvolver um novo produto, preciso que o senhor me ajude, é o único em quem eu posso confiar.

- pois não, chefe.

- Eu pretendo revolucionar o mercado de papel higiênico. Vou mudar e melhorar tudo e blá, blá, blá...
No começo Ivanor achou tudo meio estranho, mas acabou gostando das idéias. Se desse certo, continuaria nas nuvens com o chefe; se desse errado, então não precisaria mais atender aos desmandos de Hildebrando como um cachorrinho.
De qualquer forma sairia no lucro.

Hildebrando fez com que todos os rolos de papel higiênico fossem fabricados na cor azul com o logotipo da empresa em alto relevo a cada 70 centímetros; o aroma era de jasmim; aquele horrível tubo de papelão no interior do rolo foi substituído por modernos e bonitos tubos de acrílico; a embalagem, que antes continha quatro unidades, agora era unitária e feita de alumínio – uma beleza.
Quando soube que seu produto havia ganhado mercado entre os podres de ricos e pobres de cérebro, Hildebrando, pela primeira vez, ofereceu um jantar em sua casa. É claro que todos os subordinados compareceram ninguém queria perder o emprego por motivo tão pequeno. Ivanor era só elogios aos papéis do chefe: lindo acrílico, embalagens de bom gosto, maciez no toque...
Maciez no toque?
Alguém notou que Hildebrando empalideceu. Correu ao banheiro e voltou vermelho, verde, roxo. Deu um sermão sobre ética! Valores! Moral!
Ameaçou todos que haviam estado no banheiro, deu murros e urros pela sala, ordenou que fossem todos embora “bando de hienas!”

E assim se deu sem que ninguém entendesse.
No dia seguinte Ivanor, com mais doze funcionários foram despedidos. Também pudera, depois de todo o trabalho de Hildebrando para desenvolver um produto de bela aparência, forte e diferente; tiveram a petulância de ir à sua casa, passar merda no seu papel e ainda por cima, jogá-lo no lixo!!

-Perfeccionista! - Gustavo balbuciou enquanto consultava a página dos classificados - Talvez Hitler também fosse.

15 comentários:

  1. rsrsrs...
    Adorei a história do Hildebrando. rs...
    Gostei da ironia na escrita:
    “meu pior defeito é, com certeza, o vício em fumar craque; tenho perdido muito dinheiro nos últimos meses”.
    Ainda bem que ele era só perfeccionista.
    Boa semana!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. interessante você comentar isso, sobre o "perfil do funcionário ideal". Eses dias um psicanalista foi ao Café Filosófico, aquele programa da TVCultura, e falou que o mal do nosso atual século é a necessidade de imagens felizes, no trabalho, na propaganda, em casa, na escola, etc. Ninguém vai comprar um carro se o motoristra do comercial não estiver paquerando uma gostosa com a auto-estima lá em cima. Parece que se o sujeito não está super feliz a receber ordens pra fazer a fábrica de papel higiênico ir pra frente é sinal de que ele não é dedicado o bastante. De acordo com as novas regras de moral e imagem, não importa se você é um bom funcionário ou bom marido ou a merda que for, se não parecer visivel e conspicuamente feliz, a transbordar auto-estima, você não serve...
    enfim, boas festas, abçs.

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  4. mto obrigada por me linkar amigo.. seu blog também já está entre os meus favoritos.. visitarei sempre q puder.. grande beijo.. e uma feliz passagem de ano!
    bjokass

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  5. aproveito para te avisar q também está linkado em meu outro blog..

    http://lua-do-antiquario.blogspot.com/

    apareça quando puder!
    beijss.. FELIZ 2009!

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  6. Isso deve ter doido de leves em alguem.....ah???

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  7. Ótimo, Luiz, como sempre. Genial!
    Um ótimo 2009 pra vc e os seus.
    Abração

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  8. Massiez no toque. Acho que conheci alguém assim entre os jornalistas de Brasília. Hehehehe... Feliz ano novo, meu caro!

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  9. Cara, a Denise me perguntou de textos bons pra publicar em uma revista...tem o link no blog dela...mandei o endereço do teu blog..manda uma recadino pra ela..tem texto do fabricio la!!!

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  10. olá meu camarada, que saudades, mas enfim, agora que minhas férias findaram, estamos de volta, hehehe.

    gostei do assunto mercadológico, a marca, o perfil de funcionário ideal, sem falar na tal projeção de empresário bem sucedido, fantástico, e não posso deixar de elogiar o seu sarcasmo, parabéns, belo, muito belo, e mesmo como colorado, hehe tenho de te aplaudir,, um abraço, de gaúcho para gaúcho.


    sorte e luz.

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  11. Cara... Excelente texto! Morri de rir com o Hildebrando e sua perfeição perfeita! :)

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  12. esse cara morre louco hauahaua perfeccionista e modesto!

    eu tbm gosto muito da palavra "alfaiate!", profissão humilde e honesta!

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  13. Hitler era perfeccionista sim. Ele também tinha a simpática mania de pedir pra sobrinha dele - de catorze anos- dar um perfeito mijão em cima dele.

    Sem zoeira. Sou fascinada pelo lado obscuro das biografias.

    beijas

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