sábado, 18 de outubro de 2008

Raízes.


Sempre achei estranhas as pessoas de minha cidade e (apesar de Erico Veríssimo ter-me advertido quanto ao uso indevido de palavras grandes como “sempre” e “nunca”) sempre achei que nunca voltaria àquela cidade fria, no alto da serra Catarinense, a minha cidade.
Nunca mais: as pessoas com ar de superioridade, vozes ásperas de quem sabe exatamente o que dizer; pulinhos ao redor de garrafas de vodka para espantar o frio que teimava – e teima – em fazer hora extra; caminhar para o trabalho em manhãs chuvosas de segunda-feira apenas para descobrir que a chuva mais forte lá estava, acima das nuvens, segurando a risada em silenciosa espera, não! Nunca mais!
As ruas de montanha russa, exigindo paciência e coragem aos transeuntes carrancudos das manhãs chuvosas de segunda – feira. Motoristas deseducados, cheios da mais pura razão serrana. E o vento...
O vento que mais de uma vez, fez com que meu amigo, Diego, tivesse seu guarda-chuva retorcido, planando sobre nossas cabeças e depois inutilizado por uma cerca de arame farpado. O vento das noites de chimarrão quente que lhe queimava a língua inadvertida. Pobre Diego, que nunca teve coragem de se ir embora, nunca teve chance de ver o mar, jamais deixou de queimar sua língua... Meu amigo, Diego, ainda lá se encontra: tomando chimarrão, enfrentando o vento, enfrentando a minha ausência...
Mas o frio: frio como naquele dia da minha infância em que eu, em um ponto de ônibus, gelado até os ossos, abraçava as pernas de minha mãe enquanto via a neve estender-se sobre os telhados – a primeira e única neve “legítima” da minha vida; - chorava baixinho e ritmado, o choro das crianças da minha cidade fria.
Mesmo o ar: cheira á fumaça de fogão à lenha, à serragem e a ipê amarelo na primavera...
Havia um ipê amarelo em frente à casa da Camilinha. A Camila do jogo de vôlei, a Camila da espera no portão só para ver passar e sair do frio; a Camila do primeiro beijo escondido ao lado da igreja, depois da aula de catequese. A Camila que fazia versos como ninguém. A Camila morta aos vinte e dois por um motorista choroso que não conseguiu ser seu namorado. Faltavam ainda dois anos para que ela se formasse em Letras...
Minha cidade continua lá: fria e triste, sempre esperando às manhãs chuvosas de segunda – feira, esperando pela minha volta que não vai acontecer.
Aqui, não. Aqui nesta cidade do litoral, o vento vem do mar e é refrescante; o sol é limpo e generoso; as estradas planas de domingo à tarde, sorriem ao passante e dizem que não lhe pertencem.
Aqui as pessoas são diferentes: extrovertidas, alegres. As pessoas de fala cantada espantam-se ante meu sotaque; convidam- me à praia, sorriem ao passar; sempre prontas para mais uma amizade frívola.
E pensando em tudo isso. Debaixo deste sol generoso; os olhos profundos na estrada plana de fim de domingo; seguro a cuia de chimarrão com as mãos de quem segura um coração morno. E as pessoas, que sorriem ao passar, nem notam a lágrima que se mistura à água nem tão amarga.

12 comentários:

  1. Eu lembro daquele dia de neve. Nossa cara, faz tempo hein?!
    Até me veio o cheiro de fogão à lenha...
    Abraço!

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  2. Tua cidade são todas as cidades, mesmo as não geladas...
    Bonito e muito bem escrito teu texto... abraços no amigo que ficou, ele merece.

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  3. Que pelas frases! Lindas palavras!
    Tb voltarei para este blog!

    Obrigada pelas tua visita lá no meu!!

    Bjão!

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  4. Ah, essas cidades da infância.
    Detesto a minha também.
    Lembro agora de uma música do Marcelo Nova que, se me permite, vou postar um trecho aqui:

    "A tensão aumenta,
    e nada é o que aparenta na cidade-bunda.
    O cão late prá roda,
    e Márcia segue a moda,
    na cidade-nunca.
    O ontem não importa, o negócio é agora;
    a modelo é tão linda com os peitos de fora.
    E todo mundo é ligado,
    e todo mundo é esperto,
    e ninguém sabe, entre tantos, qual caminho é o certo.
    Aqui na cidade-bunda não dá pé quando se afunda;
    aqui na cidade-bunda o prazer é raso e a dor profunda".

    Prá mim, essa letra é um hino à minha cidade natal.
    Acho que é o hino de muita gente.

    Abração, e desculpe o comentário gigantesco. Rerere.
    :)

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  5. Uma curiosidade: citas érico veríssimo. Sou da mesma cidade que ele. Teve algum contato pessoal ou somente com os livros?

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  6. Vi teu perfil agora, vi que não teve, pela idade... hehe

    \Tenho (tinha) uma obra autografada dele, de quando era bebê.

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  7. Parece que acabei de visitar uma cidade em que nunca estive. Já imagino casas repletas de verde em morros e ruas de pedra sabão. Inspirador. Um abraço

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  8. sempre (desculpe-me veríssimo) que voltamos a um lugar que lembra nossa infância, esse tipo estranho de nostalgia invade nosso ser. não é bom, ou ruim, apenas é. sensação de não pertencemos àquele lugar que antes chamávamos de lar. é confuso, mas mostra que mudanças sempre nos trazem novas esperanças, perspectivas, uma nova vida, que apesar de tudo, querendo ou não, sempre estará ligada ao ponto de partida.
    ótimo blog.

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  9. Muito bom o seu estilo de escrever. E você vive em que cidade agora? Nunca confiei em nacionalismo ou regionalismo. Acho uma idéia perigosa e alienista. E o sul é bastante segregário, né?

    Quando eu acabar o romance te dou um aviso, cara.
    Valeu pela força, abç.

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  10. Também tenho uma relação conflitante com a cidade onde nasci e vivo até hoje.
    Por uma série de razões penso em alçar vôos distantes e deixar esse quadradinho prepotente que não me recebe.
    Eu tenho medo são dessas lágrimas...

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  11. Lindo texto. Vc escreve muito bem mesmo. Ainda sem muito fôlego com tudo que to lendo por aqui. MAs também fiquei muito curioso também em que cidade vivia e onde vive agora...
    Abraços

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  12. bah, esse aqui tá show.

    sorte e luz.

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