quarta-feira, 16 de maio de 2012

O outro nome da saudade

Senta-se diante do monitor desejando consolo para a ausência que carrega na alma. Semear a esperança para si e para os companheiros de jornada em vigília àquela mesma hora é a sua necessidade.
Buscando a inspiração imprescindível para o intento, contempla e assimila a madrugada que repousa lá fora. Serena entorpecência unge-lhe as vistas como se a matéria negra da noite desejasse transmitir-lhe alguma mensagem. Divisa, por entre as pálpebras semiabertas, as mãos de jovem senhora, um tanto triste e chorosa, a cobrir-lhe os olhos e se vai para longe...

Noite pesada, encontro entre duas eternidades: o negro mar imenso, profundo; o imensurável negro céu. Tocam-se e confundem-se na linha distante em frente. Vê a si mesma, a guiar grande embarcação e lembra-se de anteriores acontecimentos que lhe oprimem o desassossegado ser: houve um corpo atirado ao mar dias atrás, causando-lhe o recolhimento pensativo atual. Pondera acerca deste mar incompreendido de turvas águas quentes e frias, rasas e profundas; e rememora aquele que jaz sob as ondas. Quisera tê-lo ainda aconchegado à própria fragilidade e cederia ao mais sincero impulso da alma em um abraço, um pedido de perdão, de compreensão, um ósculo nascido do amor. Onde estaria agora a chama que movimentara aquele corpo agora frio e inexpressivo? Oh, em alguma paragem deve vibrar ainda e sempre aquela luz, pois que há uma mãe Luz para além desta modesta linha que minhas reduzidas sensações conseguem divisar ao longe. Como poderia morrer se habita o meu peito?

Novamente a jovem senhora se aproxima; modificada, irradia claridade na alvura de sua presença envolvente. Sua voz é um sussurro que não fere o ar: “Ouve, pequena flor: Comigo os horizontes se afloram e se aclaram, sabes onde é mar e onde é céu. Da minha ânfora sorves aquilo que sustenta a ti como àqueles que amas; sou o sentimento guia trazido pelo Mestre para lhes indicar as rotas invisíveis neste mar.  Chama-me neste momento, Esperança; enche-te de mim e confia, nada se perde no contexto divino, não podes entender todo o quadro quando tens frente aos olhos apenas um cantinho pequeno de singelas pinceladas. Acorda e não me faça mais sofrer. Sou Esperança, mais se estou triste, se sofro, meu nome é saudade.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Notícia cotidiana.

Passando os canais. As velhas novidades viciadas de sempre: morte, tragédias, roubos, assassinatos; fazem parecer que o mundo anda inexoravelmente para o abismo. Agiotas brincando de senhores da vida: “Coração na sola do pé” – diz um deles na ligação gravada, como se houvesse felicidade sem coração, fora do amor.
O bem não faz manchete e o mal não carece ser comentado. Porém uma notícia me chamou mais a atenção: eis que, em uma cidade qualquer deste Brasil, no meio de um lixão, rolando entre sacolas de plástico e restos de comida; um corpo semi apodrecido de um neném. Disseram ser o corpinho de uma criança de dois meses... Sendo revirado pelas máquinas. Dois meses... Isso diz que a mãe o conheceu e conviveu com ele durante sessenta dias. Não foi um aborto praticado no calor da revolta ou durante uma crise de tristezas. Um bebê jogado no lixo. Talvez tenha chorado durante algum tempo, clamando à vida que mandasse uma alma solidária recolher-lhe a fragilidade e que não o deixasse morrer. Chego a sentir o frio e vejo a cena: uma criança largada no LIXO! O gelo que preenche meu estômago parece vir de algum túmulo frio, de um menino, que não pôde viver porque, aos dois meses de idade, foi atirado ao lixo, possivelmente por aquela que atenderia quando ele aprendesse a pronunciar a sagrada palavra: mãe.
Teria razão aquele agiota: “Coração na sola do pé”? Mas, espere!
Temos aqui, sorrindo de forma calma, mas terrível, andando silenciosamente pela casa, algumas crianças de corpos semi apodrecidos. Seus pensamentos invadem minha cabeça, como se falassem de dentro de mim: “Orai, orai pelas mães dos meninos e meninas largados ao lixo! Não tendes idéia do implacável remorso que corrói suas vidas. Nada sabes da escuridão profunda em que se atiraram, da miséria destes espíritos que jamais encontrarão tranquilidade nesta vida, da febre noturna que lhes faz companhia. Orai por nossas mães, assombradas mães, infelizes algozes de si mesmas, que rejeitaram os seres que seriam talvez o único motivo de alegrias que teriam neste mundo, e não acreditai na dureza do coração humano. Ele cede, mesmo que tarde, aos apelos do amor.”
Estás errado, agiota que te tornaste infeliz fio condutor da ruína das pessoas. Pois que vejo agora as crianças; não mais enjeitadas, chorosas, abandonadas ou apodrecidas; volitarem janela afora, misturarem-se com os raios da luz do dia, numa sublime jornada, vetada para nós que as maltratamos. Vão, meninas e meninos! Vão ser o anjo na cabeceira das mães culpadas que temem mais uma noite de pesadelos que se aproxima.
Benditas sejais vós, mães que carregam seus preciosos fardos junto ao peito; que negais a si mesmas pela singeleza da felicidade infantil. Benditas sejais vós, mães. Bendita sejas tu, minha mãe.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Nunca fui marinheiro...

...No entanto aqui estou, oferecendo o peito ao desconhecido, lábios apertados e olhar úmido, de pé na proa, sentindo a água fria do mar-oceano- negro afagar o casco. O capitão não sou eu, não está abordo. Deixou o timão, controla a embarcação de fora, por meio de minhas trêmulas mãos. Impede que o tremor de minhas mãos nos leve de encontro ao rochedo. Mas este é meu navio...
A preguiça agora toma lentamente conta das ondas... As rochas passam assombrando ameaçadoras, estão à espera da próxima tempestade para saciarem seus instintos destruidores. Contam comigo para o naufrágio. As rochas são monstros desenhados pelo luar contra um horizonte de nuvens e infinitas escuridões de tintas cor de fuligem para obstruir meus pulmões.
Só agora encontro a bússola. Estava perdida desde o início dos ventos; ficaram apenas as estrelas, que se velaram, uma a uma, antes do encontro entre as águas dos céus e as águas de netuno.
Durante a procela, eu era demônio raivoso, à deriva pelo convés; invalidado pelo medo de que o medo paralisasse o braço do leme. Não fosse a dedicação da tripulação e já estaríamos adernados. Alguns serão, ainda hoje, sepultados no mar...
Mas os ventos se amansaram, a bússola foi achada e, apesar do constante perigo dos recifes, as sereias perderam suas vozes.
A viagem não acaba tão cedo, mas as cores surgem, tímidas, com o avançar da madrugada já não tão escura e o sol logo secará o convés para que os homens descansem da noite e do medo; para que a esperança volte a habitar os horizontes das vidas. Até a próxima procela, até que os infinitos voltem a se chocar, quando os elementos estiverem novamente em desacordo. Aí não serei mais demônio, mas marinheiro sem temor das ondas que podem apenas alquebrar e destruir o meu corpo denso, como a tempestade que passou.

domingo, 29 de março de 2009

Consciência

Um sacolejar ritmado... As pedras sendo trituradas por grossas rodas de madeira...
Acordou de súbito! Uma inexplicável sensação de terror apoderou-se do seu ser. Estava deitado de lado, no chão morno de uma espécie de carruagem, vestido de andrajos de dois séculos atrás. Mal abrira os olhos, fora golpeado por forte odor nauseabundo que lhe envenenava as narinas e as entranhas. A barba estava crescida, a boca seca, a barriga vazia. Levantou-se em um susto, forçou a porta: trancada. O medo crescia-lhe no estômago. Não sabia a que devia aquela situação ou o pavor que ela lhe trazia, nenhuma idéia lhe vinha sobre o porquê do seu aprisionamento ou para onde estava sendo levado. Como animal que acaba de conhecer a gaiola na qual passará a vida, debateu-se. Procurou por uma janela, uma comunicação com o cocheiro – sim, porque se há uma carruagem em movimento, há certamente quem a conduza. Abriu as cortinas muito vermelhas e velhas de um dos lados - não havia vidro, apenas a abertura da janela. Fora, a luz de um sol tímido mal podia vencer o ar pesado e sufocante de cinzas e medo; dir-se-ia tratar das vizinhanças de um vulcão, não fosse o abundante matagal que envolvia o caminho de terra por onde seguia o veículo. Bandos de grandes aves desengonçadas corriam assustadas à aproximação da carruagem, soltando gritos estridentes e agourentos que lembravam o lamento insuportável dos porcos quando feridos. Armou-se de coragem e pôs a cabeça para fora: o condutor que usava um enorme elmo em forma de cabeça de falcão e uma capa escura que lhe cobria todo o corpo; fustigava os cavalos repetidamente.
Receoso, tentou chamar a atenção do cocheiro, primeiro utilizando da polidez adquirida em anos de vida social, depois aumentando a voz na tentativa de vencer o barulho produzido pelas rodas. Diante da indiferença de que se via alvo, protestou: clamou contra a injustiça daquilo que considerava ser um seqüestro; enumerou seus títulos um a um, se fez conhecer pelo respeitado nome de família... Em vão. A carruagem seguia célere por entre paisagens cada vez mais tomadas pela escuridão da noite próxima.
Sentou-se a um canto e chorou desconsolado; abraçado aos joelhos, vencido pelo infortúnio, envergonhado diante de sua própria covardia. Poderia facilmente fugir através da janela, saltar do veículo rumo ao desconhecido; mas o medo lhe tolhia a vontade, a inteligência e a razão o haviam abandonado. Não ousava.


Acordou novamente, vindo de um sono de angústia; cansado e dolorido como se tivesse estado em vigília durante toda a noite. A carruagem agora atravessava um pequeno e sombrio vilarejo: casebres de tristeza e madeira negra, ruelas enlameadas por onde corriam multidões de roedores cinzentos; nuvens ameaçadoras de insetos zumbidores. Mulheres bem vestidas – para espanto maior do viajante – surgiam aqui e ali, revelando, por entre o esvoaçar de seus vestidos, seios e faces horrendas cobertas por chagas indescritíveis. Aproximaram-se rapidamente, lançando impropérios àquele que conheciam pelo nome e, amaldiçoando esse nome, escarravam substâncias purulentas, jogavam-se sob as rodas do veículo em movimento a fim de pará-lo; tendo, no entanto, o corpo destroçado por essas rodas num espetáculo horrível de sangue e ranger de ossos partidos. Algumas gargalhavam nervosamente ao longe, impedidas de aproximar-se, enrijecidas por toda sorte de deformidades, exibindo bocas vazias de línguas e dentes, orbitas oculares vazadas, membros retorcidos de velhas arvores.
Quis refugiar-se em um dos cantos do cubículo que ocupava; fazendo o possível para afastar-se das mãos cadavéricas que o procuravam através das janelas, em meio aos gritos que se misturavam aos seus próprios, quando tropeçou em um embrulho que lhe parecia não estar ali antes.
“Não se assuste, não se apavore. Eu sou a última coisa que você deve temer aqui” – ouviu ressonar em seu crânio. Recuou ofegante, encolhendo-se no chão e, em meio à bruma que tomou sua visão, viu a figura de uma menina séria levantar-se daquele embrulho de trapos e lhe segurar a destra. Então perdeu completamente os sentidos.


Imóvel, paralisado no chão da tal carruagem...
“Abra os olhos! Eu sei que está acordado! Não há o que temer, estamos sozinhos agora.”
A menina loira agachada o olhava fixamente. As suas palavras não eram articuladas, mas ecoavam no cérebro dele. A carruagem ainda estava em movimento, podia-se ouvir o chicote cortando o ar, lambendo as costas dos animais. O medo continuava intenso, no entanto sentia-se um pouco mais calmo na presença daquela “criança.”
- Quem é você? - arriscou, depois de alguns instantes de hesitação.

“Sim, você está cheio de perguntas. Mas a pergunta certa não é: quem sou eu? ou: por que estou aqui? ou ainda: quem é o cocheiro? A questão é: quem é você?”

- Eu sou o doutor...

“Isso todos sabem, meu ingênuo rapaz, – ela falava ora o encarando, ora fixando um ponto no chão – aqui os títulos nada valem; não é possível usar seus subterfúgios, não há engano. Olhe novamente em volta! Tem certeza que não reconhece a paisagem?”

- Isso é um absurdo. Há quantos dias me encontro aqui? Devem estar me procurando...

“Quantos dias, você se pergunta. Vinte e dois anos. Por quê? Porque você assim deseja. Vai também me dizer que não reconheceu, nas mulheres que atacaram a sua condução, as mesmas faces das pessoas que agora você espera estejam te procurando?”

- Vinte e dois... É impossível! Deve ser um pesadelo; você deve estar apenas na minha cabeça!

“Sim, eu estou na tua cabeça, eu sou criação tua, assim como tudo que viste até agora. Mas não sou menos real que estes andrajos com os quais se veste, ou essa carruagem que você criou para sua própria prisão e segurança. Sabes que te quero matar, não é?”

Ficou petrificado. A menina tinha um sorriso de deboche no rosto pálido; esfregava as mãos como que antevendo alguma espécie de gozo.

“Mas não tenha medo. Não faria nada mais contra você. Não quero que acorde novamente. Quero apenas que entenda que aqui é sua nova e eterna morada. Durante vinte e dois anos tem conseguido acordar depois de cada noite passada aqui, na minha companhia. Mas agora, todos que poderiam te ajudar estão mortos. Você os matou! Agora vais viver o pesadelo que criaste para ti mesmo, da mesma maneira que lançaste aqueles que contigo se importavam na escuridão do abandono, da mentira! da injúria! do crime!”
- Mentira! Não há provas contra mim! Eu não matei ninguém. Onde meus acusadores? É acaso meu juiz?

“Mostra tua cara sem maquiagem, algoz! As evidências estão por toda parte, pois que aqui não há juízes, mas apenas a tua consciência. Esse é o seu inferno, povoado pelos seus demônios. Veja se a face do cocheiro não é a mesma tua! Contemple a própria desgraça nos rostos que virão te beber as lágrimas! Chore! Chore mais! Porque desta vez a vitória é minha!
Porque do coma que te encontras, ninguém jamais te poderá libertar!”

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Miríades

Metade do mês de Maio já é passada. As noites, mais frias e ventosas, são anunciadas por crepúsculos cada vez mais antecipados; encontram as casas fechadas, as janelas acesas, ruas semi-desertas.
Ignorando o frio uma porta permanece aberta para a noite. Em toda a casa não há iluminação; excetuando-se um aparelho televisor, ligado na cozinha onde sua luz não pode incomodar, e uma pequena lanterna que brinca de vaga-lume no quintal.
Fernando tem a impressão de que todo esse ar gélido mantém uma caprichosa ligação com as estrelas do céu. Parece-lhe que, para que elas se mostrem se faz necessário a solidão das ruas, o vento cortante.
Só nas noites realmente frias de outono, as estrelas brilham em todo o seu esplendor; nessas noites, Fernando renuncia ao aconchego de seu lar e, munido de sua lanterna e de um velho livro de astronomia, viaja às estrelas a partir do quintal de sua escura casa.
O escorpião nasce no horizonte. Com a mão em aba sobre os olhos, como se fizesse sol, Fernando bloqueia a incômoda luz do poste; já não precisa focar a lanterna sobre as figuras do livro para encontrá-lo; o escorpião destaca-se, enorme; vem por cima dos morros como se nascesse das entranhas das coxilhas, trás consigo Antares e a força de um milhão de sóis. O adolescente, agora menino, sobe no muro para que seus olhos possam acompanhar por detrás de sua casa a despedida de Órion, sua preferida; a vê aumentar de tamanho à medida que se aproxima do ocaso, até ser engolida pela pretensão dessa cidade escura e feia.
Fernando não é religioso, não crê em um deus inventado e humanizado, bondoso, conquanto que lhe paguem o devido tributo; não freqüenta as igrejas repletas de soberba ao ponto de lançar anátemas a todos que ousaram fazer frente ao seu poder de areia. Mas, nessas noites de frio intenso, com Jupiter, Canópus e Arcturus, uma nova chama acende-se em seu peito, acalentando seu coração. Não importa se as pessoas riem ao vê-lo trepado assim em um muro de tijolos, procurando discos voadores ou sabe-se lá o que passe pelas cabeças dos humanos ignaros muito senhores de si. Não interessa também que os ditos sábios considerem tudo que existe obra de um acaso estúpido e inconsciente. Sob a abóboda noturna, Fernando descobriu finalmente Deus, apenas perscrutando as estrelas do infinito.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Viagem

Eu sou mais um dos impacientes passageiros nesse ônibus imóvel. Por falta de opção, estou sentado em um banco recheado de sol; suando como só um mamífero superior, que espera o horário do ônibus, de roupa preta, debaixo do sol, pode suar. Em minha frente, uma senhora gorda (perdoe-me, digníssima senhora, mas foi sua gordura que me chamou a atenção), passa repetidas vezes, um lenço – bem encardido - pelo pescoço enquanto comenta o calor com o homem do seu lado. Há alguns religiosos mais ao fundo, usando um ton de voz de quem quer se fazer entender no meio de estupenda tempestade. Várias pessoas de pé, comentam o dia, as horas, as vidas e as mortes.
Uma das moças do banco de trás - não sei bem se a Letícia ou a Francine- interrompe por um instante o caloroso diálogo sobre moda que vinham mantendo para ligar a “música” de seu celular: pagode
E foi esse pagode que me despertou para uma pergunta que vinha formulando sem me dar conta, ha alguns minutos: O que será dessa gente? O que guarda o futuro para essas moças de risada estridente, ou para aquele homem que acaba de entrar, soltando a última baforada do cigarro aqui no meu lado como que adivinhando o nojo que isso me causa?
O motorista finalmente dá a partida.
Fixo o olhar em um casal que sorri. Carregam várias sacolas... De onde será que vêem? Vêem de Curitiba; acabam de fazer as compras do primeiro mês para sua casa nova. Há alegria e confiança em seus olhares. Serão relativamente felizes. Separar-se- ão daqui a quatorze anos, quando ele conhecer uma jornalista de Manaus pela internet. Ela, depois de uma temporada sofrendo de depressão, viverá feliz e conformada, até sua morte no ano de 2052, dois meses depois de enviuvar pela segunda vez.
Dirijo o olhar ao fumante do meu lado. “Deve morrer de enfisema; câncer talvez”.
Não. Bala perdida. Terá seu coração sadio perfurado por um projétil. Faltam duas semanas. Nem terá tempo de gastar o dinheiro da loteria, que lhe espera no próximo ponto.
Não resisto, viro-me para ver as moças do banco de trás: Letícia e Francine são irmãs de criação; pensam em fazer Biblioteconomia, e assim será. Por motivos financeiros, levarão onze anos para acabar a faculdade. Perderão contato por alguns anos, até o reencontro em Salvador. Serão amigas e companheiras para sempre.

O ônibus está agora protegido do sol. A senhora gorda suspira de alívio, mas... Que morte dolorosa! Chego sentir o fétido de suas carnes apodrecendo, o horror do corpo que se decompõe em vida! Sua existência de trabalho criando os seis netos será coroada por implacável tumor na região do útero. Em nove anos, a múmia na qual estará resumida, em nada lembrará a imagem hoje refletida no vidro do ônibus.
Imagem refletida...
Num impulso eu olho para o vidro do meu lado. Porém, algo está errado! Não é possível! Que espécie de criatura teria a ousadia de...
- Moço... Moço... Moço!!!
- Hã?!
- É o último ponto, moço.
-Ultimo quê?
-Ponto. O senhor vai ter que descer.
-Descer de onde?
-Do ônibus, moço. O senhor precisa descer.
-Mas...

Desço. O sol me empurra pro chão embaralhando ainda mais minha cabeça. Imagens em névoa de pessoas que não conheço. Curitiba... Biblioteconomia... Inferno!! Terei de esperar quarenta minutos para pegar o ônibus de volta. Quem sabe então eu consiga novamente me concentrar e lembrar de jamais ler Fernando Sabino e Baudelaire no mesmo dia.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Estória


Vinha caminhando solitário, em meio aos outros transeuntes, ás seis e meia da tarde de uma quinta-feira. Era professor de química, mas escrevia de vez em quando; e justamente nessas duas coisas vinha pensando alternadamente, envolvido pela falta de vontade de chegar àquela hora em casa. Sentia ânsia em escrever sobre seu trabalho: a química envolvida em um romance singular, no qual cada elemento da tabela periódica pudesse formar uma pista para uma gloriosa fuga daquela dimensão estranha em que seu personagem principal se viu preso, em uma tarde como essa de quinta-feira. No entanto, não conseguia organizar os pensamentos e as palavras em sua preocupada cabeça. Não tinha costume em anotar suas idéias, ficava sempre repetindo baixinho uma estória recém inventada, até a hora em que pudesse pô-la pra fora em forma de um conto ou crônica ou qualquer outra coisa. Não raro sentia a cabeça vazia diante da tela do computador, depois de um dia inteiro de extraordinárias idéias para futuros Best selers. Então acabava que preferia ficar perambulando pelas ruas, pelos bares do centro da cidade, degustando seus belos escritos natimortos, evitando a fatídica hora em que, sentado em frente ao monitor, veria sua carreira literária desvanecer-se, incapacitada de romper a barreira que a separava da tela em branco do computador.
Mas eis que algo diferente e inesperado aconteceu diante de seus olhos incrédulos. Dir-se-ia que, tocado pela sua cruel realidade, condoído pela sua desdita, o destino (ou Deus, ou o acaso, ou ainda a sorte) lançou mão de extremo poder para que aquele homem sonhador e entristecido tivesse uma estória pra contar; algo que não pudesse ser facilmente esquecido, algo que sobrevivesse à sua chegada em casa, que fosse concreto o suficiente para ser traduzido em palavras.
Mas, ai daquele homem! Quão zombeteiro mostrou-se esse destino.
Em plena praça pública, diante de toda a gente, ele viu surgirem, não obstante sua descrença, dois homens empunhando longas espadas, vestidos como os antigos samurais. Pareciam preparados para um duelo que já estava por começar. Espantado e ainda descrente ele olhou de um rosto para o outro: olhos puxados, expressões concentradas. Um tinha o cabelo muito negro a cair pelos ombros e levava uma espada em cada mão; o outro empunhava sua arma com ambas as mãos, acima da cabeça. Em redor, as pessoas normais transitavam ignorantes daquilo que ali se passava. Tudo indicava que, a não ser ao nosso professor de química, o espetáculo era oculto a todos os passantes.
Ele viu os homens trocarem algumas palavras em uma língua que adivinhou ser o japonês, – quem haverá de lembrar em descrever samurais coreanos?! – e partirem para a contenda que não durou vinte segundos e três movimentos.
O professor presenciou a queda daquele que levava a espada solitária; em meio ao sangue que lhe escorria do longo corte aberto em diagonal no seu tórax.
O guerreiro em pé fez uma mesura - olhos fechados -, diante do adversário moribundo e partiu sem que se pudesse ver para onde.
O professor assistiu a tudo aquilo incapaz de qualquer gesto, estupefato diante da peça que lhe era pregada. Quedou-se mudo por cerca de meia hora; só então entendeu que grande oportunidade a vida estava lhe dando. Pouco lhe importava quem eram aqueles homens, se reais ou apenas produtos de sua obsessão; o fato é que agora ele teria algo inesquecível para contar aos seus futuros leitores.
Entrou em casa e, numa fúria incontrolável, trocou tudo em palavras. Lembrou pormenores, leu e releu o que tinha escrito. Finalmente tinha algo real para seu desgostoso editor.
E o editor aceitou publicar a estória dos samurais, a estória foi publicada para alegria do escritor ex-professor de química, e a estória entrou para a história daquela cidade como o maior fiasco literário dos últimos tempos.