Um sacolejar ritmado... As pedras sendo trituradas por grossas rodas de madeira...
Acordou de súbito! Uma inexplicável sensação de terror apoderou-se do seu ser. Estava deitado de lado, no chão morno de uma espécie de carruagem, vestido de andrajos de dois séculos atrás. Mal abrira os olhos, fora golpeado por forte odor nauseabundo que lhe envenenava as narinas e as entranhas. A barba estava crescida, a boca seca, a barriga vazia. Levantou-se em um susto, forçou a porta: trancada. O medo crescia-lhe no estômago. Não sabia a que devia aquela situação ou o pavor que ela lhe trazia, nenhuma idéia lhe vinha sobre o porquê do seu aprisionamento ou para onde estava sendo levado. Como animal que acaba de conhecer a gaiola na qual passará a vida, debateu-se. Procurou por uma janela, uma comunicação com o cocheiro – sim, porque se há uma carruagem em movimento, há certamente quem a conduza. Abriu as cortinas muito vermelhas e velhas de um dos lados - não havia vidro, apenas a abertura da janela. Fora, a luz de um sol tímido mal podia vencer o ar pesado e sufocante de cinzas e medo; dir-se-ia tratar das vizinhanças de um vulcão, não fosse o abundante matagal que envolvia o caminho de terra por onde seguia o veículo. Bandos de grandes aves desengonçadas corriam assustadas à aproximação da carruagem, soltando gritos estridentes e agourentos que lembravam o lamento insuportável dos porcos quando feridos. Armou-se de coragem e pôs a cabeça para fora: o condutor que usava um enorme elmo em forma de cabeça de falcão e uma capa escura que lhe cobria todo o corpo; fustigava os cavalos repetidamente.
Receoso, tentou chamar a atenção do cocheiro, primeiro utilizando da polidez adquirida em anos de vida social, depois aumentando a voz na tentativa de vencer o barulho produzido pelas rodas. Diante da indiferença de que se via alvo, protestou: clamou contra a injustiça daquilo que considerava ser um seqüestro; enumerou seus títulos um a um, se fez conhecer pelo respeitado nome de família... Em vão. A carruagem seguia célere por entre paisagens cada vez mais tomadas pela escuridão da noite próxima.
Sentou-se a um canto e chorou desconsolado; abraçado aos joelhos, vencido pelo infortúnio, envergonhado diante de sua própria covardia. Poderia facilmente fugir através da janela, saltar do veículo rumo ao desconhecido; mas o medo lhe tolhia a vontade, a inteligência e a razão o haviam abandonado. Não ousava.
Acordou novamente, vindo de um sono de angústia; cansado e dolorido como se tivesse estado em vigília durante toda a noite. A carruagem agora atravessava um pequeno e sombrio vilarejo: casebres de tristeza e madeira negra, ruelas enlameadas por onde corriam multidões de roedores cinzentos; nuvens ameaçadoras de insetos zumbidores. Mulheres bem vestidas – para espanto maior do viajante – surgiam aqui e ali, revelando, por entre o esvoaçar de seus vestidos, seios e faces horrendas cobertas por chagas indescritíveis. Aproximaram-se rapidamente, lançando impropérios àquele que conheciam pelo nome e, amaldiçoando esse nome, escarravam substâncias purulentas, jogavam-se sob as rodas do veículo em movimento a fim de pará-lo; tendo, no entanto, o corpo destroçado por essas rodas num espetáculo horrível de sangue e ranger de ossos partidos. Algumas gargalhavam nervosamente ao longe, impedidas de aproximar-se, enrijecidas por toda sorte de deformidades, exibindo bocas vazias de línguas e dentes, orbitas oculares vazadas, membros retorcidos de velhas arvores.
Quis refugiar-se em um dos cantos do cubículo que ocupava; fazendo o possível para afastar-se das mãos cadavéricas que o procuravam através das janelas, em meio aos gritos que se misturavam aos seus próprios, quando tropeçou em um embrulho que lhe parecia não estar ali antes.
“Não se assuste, não se apavore. Eu sou a última coisa que você deve temer aqui” – ouviu ressonar em seu crânio. Recuou ofegante, encolhendo-se no chão e, em meio à bruma que tomou sua visão, viu a figura de uma menina séria levantar-se daquele embrulho de trapos e lhe segurar a destra. Então perdeu completamente os sentidos.
Imóvel, paralisado no chão da tal carruagem...
“Abra os olhos! Eu sei que está acordado! Não há o que temer, estamos sozinhos agora.”
A menina loira agachada o olhava fixamente. As suas palavras não eram articuladas, mas ecoavam no cérebro dele. A carruagem ainda estava em movimento, podia-se ouvir o chicote cortando o ar, lambendo as costas dos animais. O medo continuava intenso, no entanto sentia-se um pouco mais calmo na presença daquela “criança.”
- Quem é você? - arriscou, depois de alguns instantes de hesitação.
“Sim, você está cheio de perguntas. Mas a pergunta certa não é: quem sou eu? ou: por que estou aqui? ou ainda: quem é o cocheiro? A questão é: quem é você?”
- Eu sou o doutor...
“Isso todos sabem, meu ingênuo rapaz, – ela falava ora o encarando, ora fixando um ponto no chão – aqui os títulos nada valem; não é possível usar seus subterfúgios, não há engano. Olhe novamente em volta! Tem certeza que não reconhece a paisagem?”
- Isso é um absurdo. Há quantos dias me encontro aqui? Devem estar me procurando...
“Quantos dias, você se pergunta. Vinte e dois anos. Por quê? Porque você assim deseja. Vai também me dizer que não reconheceu, nas mulheres que atacaram a sua condução, as mesmas faces das pessoas que agora você espera estejam te procurando?”
- Vinte e dois... É impossível! Deve ser um pesadelo; você deve estar apenas na minha cabeça!
“Sim, eu estou na tua cabeça, eu sou criação tua, assim como tudo que viste até agora. Mas não sou menos real que estes andrajos com os quais se veste, ou essa carruagem que você criou para sua própria prisão e segurança. Sabes que te quero matar, não é?”
Ficou petrificado. A menina tinha um sorriso de deboche no rosto pálido; esfregava as mãos como que antevendo alguma espécie de gozo.
“Mas não tenha medo. Não faria nada mais contra você. Não quero que acorde novamente. Quero apenas que entenda que aqui é sua nova e eterna morada. Durante vinte e dois anos tem conseguido acordar depois de cada noite passada aqui, na minha companhia. Mas agora, todos que poderiam te ajudar estão mortos. Você os matou! Agora vais viver o pesadelo que criaste para ti mesmo, da mesma maneira que lançaste aqueles que contigo se importavam na escuridão do abandono, da mentira! da injúria! do crime!”
- Mentira! Não há provas contra mim! Eu não matei ninguém. Onde meus acusadores? É acaso meu juiz?
“Mostra tua cara sem maquiagem, algoz! As evidências estão por toda parte, pois que aqui não há juízes, mas apenas a tua consciência. Esse é o seu inferno, povoado pelos seus demônios. Veja se a face do cocheiro não é a mesma tua! Contemple a própria desgraça nos rostos que virão te beber as lágrimas! Chore! Chore mais! Porque desta vez a vitória é minha!
Porque do coma que te encontras, ninguém jamais te poderá libertar!”